Eu não lembro de muita coisa sobre meu primeiro nascimento. Isso é, do nascimento que me trouxe ao mundo dos homens e espíritos da natureza no dia 20 de fevereiro de 1995. Tenho memórias borradas. O que alguns julgam como tolice eu carrego como relíquias.

Me perdi tantas vezes pela estrada. Mas o problema não era me perder; o orgulho me impedia de pedir ajuda. Ele me abraçava num falso abraço genuíno e sussurrava que eu não precisava contar com ninguém. Nem acima dos céus, nem abaixo da terra.

Pelo menos meu espírito nunca desistiu de nadar para cima. Apesar das tempestades e desavenças que vivenciei até aqui. A vida não é um mar de rosas. É uma lição dura, mas necessária. Viemos para cá por várias e várias vezes. Nem todos concordarão com essa afirmação e respeito isso. A convivência humana seria um porre se todos nós tivéssemos as mesmas ideias.

Tentaram criar uma loba como uma ovelha. Me deram grama, me amedrontaram, exigiram que eu andasse em seus caminhos. Para que, no final das contas? Uma loba aprisionada, uma criança repleta de mágoa, rancor e dor. Alguém que não conseguia pensar num propósito considerável para a própria vida.

Muitas das armadilhas que me prenderam foram culpa minha. Não ouvi minha intuição. Acontece. Ninguém é perfeito.

Quando finalmente meu espírito achou um solo fértil e a semente outrora adormecida começou a germinar… que dor! As máscaras se despedaçando, os véus rasgando, o sorriso falso decaindo. Pessoas certas e erradas viram minha decadência, minhas feridas abertas, meu orgulho, a tirania juvenil, a revolta sem mais nenhum sentido.

Aos poucos os grilhões aliviaram o corpo pequeno, a voz voltou a soar alta e clara. O brilho tristonho dos olhos se foi depois de longos anos titubeantes. A pele maltratada cicatrizou e passou a suportar mais as crises e desavenças internas.

Virei as costas para tantas coisas e  tantas pessoas importantes…

Mas nós temos segunda chance. Cabe a nós aproveitá-la.

Esse ano não foi fácil. Apesar de ser o ano de um Sol envolto pela sombra do Eclipse, ele revelou inúmeras nuances minhas que eu me negava a ver. Me livrar de tanta coisa dolorosa finalmente fez a água de meu espírito correr e nutrir a terra seca.

Com a companhia de amigos seletos, pude suportar as dores e ultrapassar as barreiras. Isso será um ciclo eterno e sou extremamente grata por fazer parte dele.

Agradeço a ajuda dos Tuatha de Dana, de Hades e Perséfone, de Ceridwen, do Lobo Branco, de meus ancestrais… e todos os outros que me influenciaram e que influenciei.

2017 pode vir com seu campo de batalha. Eu estou sozinha, mas eu não estou com medo. Não mais.

(Escrito ao som de Florence and the Machine)

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