Ultimamente ando desaparecida pelas redes sociais. Coloco o termo em itálico porque, na verdade, estou sempre acompanhando as atualizações dos amigos e compartilhando posts quase aleatórios. Porém meu lado escritora anda um pouco sonolento, mas é por uma boa causa. As próximas linhas serão autoexplicativas e peço por um pouco de atenção: se você for cético ou de uma religião não-politeísta, sem problemas se me achar tola. Entretanto quero que leia esse texto até o final e reflita sobre a mensagem.

Desde o Samhain, a presença de Morrighan, a Grande Rainha, tem sido mais frequente em minha vida. É engraçado analisar que quando eu era uma mera estudiosa incrédula, eu achava sua imagem poderosa assustadora. Até então eu não tinha parado para analisar que ela é apenas ela mesma: não é uma deusa boa ou má. Essa divisão é coisa de nós, humanos; o caos é uma energia que transforma tudo na vida, e Morrighan não seria diferente.

Os amigos mais próximos sabem um pouco do que já passei no campo emocional. Meu relacionamento com minha família começou a tornar-se forte novamente após eu permitir que os ancestrais tocassem em meu coração e me fizessem notar que sou amada, independente do que os vivos digam. Todos nós somos sujeitos a fazer tolices. Porém as feridas, as mágoas, as memórias tristes, essas coisinhas tão pequenas e devastadoras ficaram comigo com o passar dos anos. E eu guardei achando que isso me tornaria mais forte.

No início do ano, quando soube mais sobre a Awen, a Inspiração, comecei a usá-la para me curar. Simplesmente meu último relacionamento foi tóxico ao extremo e parte da culpa foi minha. Não é tirando o meu da reta, não: na verdade, na época eu achava que todos estavam contra mim. Então nesse último mês de março, comecei a evocá-la para limpar meu coração. Em minhas meditações, eu sempre visualizei meu lado emocional como um lago numa clareira. Inicialmente, ele estava com as águas turvas e as árvores ao redor estavam secas.

Prossegui por longas semanas e vi bastante coisa. Um lago poluído, repleto de lixo emocional. As cicatrizes fazem parte de nós, no entanto não precisamos – e nem devíamos – nos recordar todos os dias das falhas e traições que recebemos dos outros. Quando eu achava que estava quase lá, alguma notícia de um dos conhecidos que me humilharam fazia meu sangue ferver novamente, como se eles tivessem falhado comigo no dia anterior.

Após o Samhain, a imagem da Grande Rainha ficou mais vívida em minha cabeça. Conversei sobre isso com alguns amigos que foram à celebração e, após alguns dias, finalmente aterrei a energia do ritual. Tudo parecia calmo e tranquilo outra vez, entretanto bastou a ideia de que eu me encontraria com um dos que me fizeram mal no passado que entrei em modo de batalha de novo. Isso foi nesse mês, e me exasperei comigo mesma porque não é legal guardar rancor. Mesmo que eu me senti mais tranquila no dia seguinte, e o outro e eu nos ignoramos piamente como se não existíssemos, aquilo me incomodava. Uma parte minha queria agredi-lo de qualquer forma possível.

Um tempo depois, em minha meditação da Awen, as águas do lago começaram a se mexer bruscamente. Eu prossegui até que Morrighan apareceu diante de meus olhos: alta, com olhos e cabelo negros. Por um breve momento eu parei, e ela bufou não esmoreça! Prossegui com a Awen e, quando terminei, ela conversou um pouco comigo. Uma frase que ficou em minha mente foi algo como Brighid lhe acolheu, mas eu que te ensinarei a lutar.

Alguns dias depois, eu acordei sentindo uma agonia terrível: uma raiva estranha se apossando de mim sem nenhum motivo aparente. Quando terminei meus afazeres, me tranquei no quarto e parti para outra viagem, sentindo que a resposta estaria ali no lago e, senhores, era isso mesmo.

Pela primeira vez após anos, eu fiz algo que me disseram para fazer e eu nunca tive coragem: eu gritei. Muito. Em fúria. Morrighan me olhou nos olhos e me encorajou (como você quer ser curada se rejeita retirar o veneno de suas feridas?); pude senti-la através de mim. Eu nunca grunhi tanto na minha vida e fazia muito tempo que eu não havia chorado tão alto, sem me importar nem um pouco com o que o vizinho poderia achar.

Eu sei que fiz um monólogo, mas o que ela disse me esbofeteou em cheio: como podemos desejar sermos melhores se continuamos apegados a padrões antigos? Como queremos curar as outras pessoas quando rejeitamos beber de nosso próprio remédio ou aceitar ajuda? Nunca, jamais será fraqueza chorar e se permitir sentir a dor do luto. Indiretas em redes sociais, chantagens emocionais, barganhas, essas coisas servem apenas para nos desgastar e reduzir nosso amor próprio. Não é errado sentir raiva, mas é errado você permitir que a infelicidade se acople à sua alma e a alimente.

E sem contar que não devemos nos conter quando formos demonstrar algo sincero. Se você está furioso, cansado, confuso, apaixonado, que seja, demonstre! Eu levei vinte e um anos para me jogar no chão e ver tanta coisa ruim ir embora finalmente. Não estou completamente curada, porém saber que meu lago está mais limpo, que aos poucos estou me livrando das máscaras que foram impostas quando eu era mais jovem, é libertador!

A gente não tem que amar todo mundo, muito menos os ancestrais. Mas respeito e honra são essenciais. Sem contar a gentileza. Morrighan é isso: ela chega de supetão e diz na sua cara o que ela acha de você. Mas ela te abraça e te conforta também, porém ao invés de você ouvir um pobrezinho, ela diz você é tão forte quanto imagina, então levante essa cabeça e olhe quem te oprime nos olhos.

Sabe quando eu disse que eu a achava assustadora? Me recordei disso hoje e ri: se ela fosse assustadora, eu teria medo de mim mesma. Porque ela reside em minha fúria, em meu amor pelas coisas que faço e em meu desejo por um mundo mais justo. Antes eu tinha medo de ser fácil, desagradável por ser sincera, mas agora desejo que os incomodados que se mudem. Porque se apropriar da Soberania, o poder feminino, é só para mulheres bravas. E se você não se acha brava o bastante como eu achava que não era, permita que a Grande Rainha lhe indique o caminho para ser você mesma.

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