Eu me lembro da primeira vez em que estive deitada aí, no lado direito de sua cama. A sua respiração morna parecia marcar o compasso daquele tempo ora rastejante, ora veloz, em que estávamos juntos; você adormecido, e eu olhando para o teto.

Me recordo que aquela nossa (distante) primeira vez também fora episódio inédito para mim. Quando nos conhecemos, não sabia que você viraria minha vida de cabeça para baixo. Na verdade, fomos bem mais além: a garota inexperiente descobriu que era possível sentir prazer de várias formas e posições. Ora, não precisava ficar preocupada com o que pensariam, todos faziam, não é mesmo? Mesmo os celibatários eram fodidos pela vida, querendo ou não.

Durante aquela época, engatinhei com curiosidade e uma culpa terrível. Parecia que eu acabara de me tornar a Madalena da família — meu pai nem pode sonhar com isso! —, mas aquela novidade era sedutora além do sentido denotativo, pois finalmente eu começava a me conhecer.

Éramos uma orquestra de duas pessoas; as respirações ofegantes, o tato voraz, os beijos sedentos, a ousadia em tocar uma nota mais alta. O sangue me fervia, minha Vênus interior ofuscava a Madalena constrangida e eu quase tocava o céu. Se a tontura no ápice não era sinônimo de transe, não sei o que era, então. Eu não distinguia onde um terminava e o outro começava: éramos um corpo só. Até nosso riso tornou-se único e afinado.

Mas eu não era apenas Vênus ou Madalena. Minha personalidade era uma colorida colcha de retalhos, que você começou a pisotear, cansado de tentar arrumar sobre sua cama e sua vida. Embora admito que fiz o mesmo com a sua, puxando ela inteira para mim, achando que minha nudez de espírito seria censurada pelo que você era.

Porém o que eram marcas de sapato e frio noturno quando se tinha cobertas novas? Bastava nos engalfinharmos como dois libertinos e estava tudo bem.

No entanto, fomos longe demais, ultrapassando os limites de velocidade e as placas de aviso, como aquela de ponte quebrada a frente. A gente tentava se convencer que nos entenderíamos, falando a cada nova discussão acalorada que aquela seria a última, e terminávamos o dia abraçados, com as luzes apagadas e sonhos sombrios. Nunca foi a derradeira briga até o dia em que eu bati o telefone na sua cara, puta da vida por você estar dando em cima de uma amiga minha. Por mais que eu fora alguns dias antes buscar minhas coisas na sua casa e saí sem maiores explicações, pois você tinha sido digno em terminar comigo de forma corajosa: cara a cara e com polidez.

Não adiantava mais tentarmos compor melodia alguma porque um queria tocar mais alto do que o outro. Não havia mais nada em você que evocasse minha Vênus, tanto quanto eu não era mais a sua Musa. E fim.

Passou mais de um ano, e eu ainda lembro de você. De suas palavras duras e músicas tristes também. Mas isso não é sinônimo de que eu queira voltar. Sim, meus amigos que te conhecem dizem que você não mudou nada e eu fico triste por você. Triste porque, graças àquele caos nosso, eu fui mudada e segui em frente de uma forma que não imaginei que seguiria.

Isso porque eu era a mais fraca de nós.

(escrito em algum dia de fevereiro de 2016… A arte é da talentosa Chiara Bautista, uma de minhas inspirações <3)

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