Ela era sua própria alcateia. Vivia cercada de amigos, é verdade, mas poucas pessoas sabiam o que se escondia sob a pele dela. Apenas sabiam; ninguém a conhecia. Aqueles olhos castanhos tranquilos eram o disfarce do inquieto Beta que fazia seu coração bater e suas pernas moverem-se de um lado para o outro.

Ela era sua própria alcateia. Sua cabeça era governada pelo Alfa. Algo óbvio, eu sei. Aquela necessidade — ou seria mania? — de observar tudo de longe, escolher com cuidado, se preservar de machucados bobos era de uma Alfa. Por isso que ela não corria tão cedo para um abraço cordial: aquele lobo lhe fazia vigiar todos os caminhos e escolher a rota mais segura.

Ela era sua própria alcateia. Enquanto o Alfa rosnava quando algo saía do controle racional e o Beta brincava e desafiava os que conseguiram se aproximar, o Ômega aguardava. Bastaria uma ordem e ele eliminaria o primeiro traidor. Ele morderia o Beta se ele errasse e permitisse que uma criatura perigosa estabelecesse contato. O Ômega também apartaria as brigas. Apesar de parecer ser tão rígido, ele tinha uma centelha de empatia pelos seus em seu coração.

Eu sou minha própria alcateia. Meu Beta errou inúmeras vezes, meu Alfa refreou meus passos, meu Ômega me puniu. Me perdi de mim mesma, uivei e me encontrei. Quando tentaram me amarrar, corri o mais rápido que pude. Eu pertenço a mim mesma, embora queira me doar para alguém. Vivo um dia por vez, por mais que a ansiedade me force a focar no futuro inexistente.

Minha alma é lupina, e protegerei os meus enquanto viver. Inclusive você.

(Escrito em 8 de dezembro de 2015)

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