Às vezes, penso: se pelo mundo afora vestimos máscaras, numa mascarada cobrimos duplamente — e de maneira barata — quem somos de verdade? Eu pensava nisso, sob minha face de corvo de papel, olhando para você do outro lado do salão. Você era um dos poucos que não escondiam o rosto, mas eu sabia que não era necessário: seu disfarce era o melhor de todos. Você sempre foi a raposa, com todo seu ardil e toda energia. Todos nós víamos você falar animado sobre seu noivado com aquela boa moça ao seu lado. Entretanto eu sentia seu magnetismo procurar por mim, pois eu era seu polo oposto. Não adiantava você disfarçar: eu te conhecia melhor do que todos eles juntos.

Num encontro acidental de olhares, tive a impressão que você estremeceu, e eu sorri: eu seria seu corvo.

Muitos me julgariam mal se eu contasse o que fazíamos quando roupas e diplomas eram totalmente desnecessários. Porém eu não tinha culpa da linguagem que criamos para nos comunicar diante deles — e que eu amava. Primeiro, porque eu não sabia nada sobre a outra quando te conheci no verão passado. Eu havia acabado de chegar à nossa atual rotina. E segundo porque simplesmente aconteceu de nos embraçarmos nesse caminho tortuoso, e você se tornar a areia movediça sob meus pés. Quanto mais me esforçava para me livrar, mais você me puxava para baixo… e para dentro.

Se meu eu de alguns anos atrás me visse agora, certamente sentiria repulsa de si (mim) mesma. Afinal cresci com nojo desses relacionamentos libertinos e que não levam a lugar nenhum. No entanto, mudei de ideia naquele dia que você me prensou contra a porta e pressionou os dedos ferozes em meus quadris, após ela ir embora. Me convenci que a vida era curta demais para cobiçar com timidez as posses de outrem.

Mas me cansei. Por mais divertido e alucinante que fora. Você estava prestes a ir embora e eu seria deixada na beira da estrada, comendo sua poeira. Não que eu sentisse que tinha algum domínio sobre você, entretanto não deixaria outra ocupar meu lugar com tanta facilidade.

Assim que sua futura infeliz esposa sair de seu campo de visão, eu irei contar a ela o suficiente para acionar seu estopim. Não é à toa que vim com a face de mensageira póstuma.

(Escrito em 5 de abril de 2016; baseado na música Magnets, Disclosure feat Lorde)

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