A noite ia além lá fora, mas a dela permanecia no mesmo lugar. Nenhuma estrela fora de sua posição, nenhuma nuance lunar a menos ou a mais. Ela conhecia aquele quarto desde que se reconhecia como humana e viva.

Seus olhos passearam pelas paredes tão conhecidas e cheias de histórias. Umas pinceladas de tinta se sobrepunham às mais velhas, sem contar os fragmentos descascados. Seu aposento era como uma colcha de retalhos estelar.

Suas mãos estavam cansadas e impregnadas pelos pigmentos que coloriam seu quarto. Aquele trabalho se estenderia até o final de sua vida, ela sabia disso. Aquele cômodo era sua responsabilidade, embora não fizera tudo aquilo sozinha: pais, irmãos, amigos e amores deixaram suas marcas pelas paredes. Por isso havia diferentes estrelas, constelações, nebulosas, planetas, galáxias e vazios. Várias vezes ela deixou seus pincéis em mãos que não eram suas, então ali estava o resultado das décadas; pedaços desconexos de uma imensidão na qual ela era apenas espectadora. Um se impondo sobre o outro, olhe para mim, eu sou melhor!, parecia que alguns gritavam.

Ela não poderia arrancar toda aquela tinta velha da parede sem esburacar a construção. Inspirou fundo, agarrou seu cetro — o próprio pincel — e fez diferente: completou os vazios com sua luz, relevou as partes mais importantes que as outras pessoas deixaram para ela e redesenhou as velhas marcas sem vida.

Como já dito, aquilo seria um trabalho para a vida inteira. Alguém sempre viria ou partiria, coloriria seu céu, lhe daria novas estrelas cadentes, apresentaria novas luas e eclipses. Por mais que a tinta descascasse, os excessos tivessem que ser removidos e cores retocadas, aquilo pertencia a ela. Eles estavam conectados.

A noite ia além lá fora, e a dela se recriava.

(Escrito em 29 de fevereiro de 2016)

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