Há dias estou com um comichão em minha cabeça. Um episódio interessante ocorrera no início de abril e, até agora, ele não para de repassar seus detalhes em minha mente.

A fim de resgatar minha Soberania, me propus a fazer coisas que eu não teria coragem, devido ao pudor involuntário ou vergonha precoce. Então iniciei minhas aulas de Dança do Ventre, curiosa acerca desse outro universo e, cada vez mais, me envolvendo com meu próprio desafio e passando a amá-lo.

Um dia, uma de minhas novas colegas chegou à classe e fez a aula experimental. Antes de ir embora, ela riu e disse:

— Adorei. Farei questão de fazer isso para agradar ao meu marido.

De repente, meu mundo congelou.

Eu comentei isso com os contatos de minha rede social favorita e, de repente, um deles me perguntou:

— Mas ora, ela está errada se disser que fará a dança para agradar ao esposo?

Eu mandei o famoso textão, no entanto sem intenção de ofender. O mesmo indivíduo, com uma ponta de impaciência, respondeu:

— Eu não quero discussão. Quero saber se ela está certa ou errada.

Então meu comichão de estimação apareceu e até agora não foi embora. O contato em questão não era um amigo chegado e na última limpeza minha ele foi mandado para fora. Mas a questão é: até onde devemos ir para agradar aos outros?

Eu sou uma daquelas famosas pessoas 8 ou 80. Eu amo demais ou não gosto de jeito nenhum. Concordo em demasia ou retruco até compreender o porquê. E sobre matéria de casamento, não sou a melhor a se pedir opinião, ainda mais com meu histórico amoroso cheio de remendos de fita crepe e borrado por lágrimas de frustração. Mas a Dança do Ventre, como qualquer outra coisa que você faz para se disciplinar, se divertir, desestressar, aprender, se conhecer… Não é pelos outros. É por você mesma, pois você começa a enfrentar suas próprias barreiras e se superar. Sem contar os benefícios físicos.

Particularmente, passei minha infância toda ouvindo que princesas eram criaturas frágeis e belas, que deveriam aguardar por seus salvadores encantados, os únicos aptos para matarem seus dragões. Essa concepção é errônea: de fato ela enfraquece as garotas. Não que devamos viver numa comunidade de amazonas (embora isso seria bem legal), mas nós devemos aprender, o mais cedo possível, que somos donas (e donos) de nossos destinos. Nossos dragões, fantasmas, demônios, necromantes interiores são de nossa responsabilidade: se vamos subjugá-los ou temê-los é escolha nossa. Não que sejamos lobos solitários também: o ser humano é um ser social, como diriam os filósofos. Porém não devemos contar com os outros até para beber um copo d’água, metaforicamente falando.

Se num momento íntimo você quiser compartilhar de sua arte com alguém, dar um vislumbre de sua Soberania, de sua inteligência, de seu charme ou sensualidade, que seja. Você é seu próprio rei ou rainha e escolhe o que mostrar ou esconder das outras pessoas. Mas não me venha com história de que é certo querer agradar ao marido/mãe/pai/vizinho/papagaio ANTES de si mesmx.

Sobre minha colega, espero que, por mais que as palavras inocentes e risonhas dela latejem em minha cabeça, ela tenha gostado. E se nos tornarmos colegas de fato, que aprendamos a ser — e não apenas a sentir que somos — as mulheres mais lindas do Universo.

Marido… Bem, a gente pode arranjar um maluco desses em qualquer lugar, mais cedo ou mais tarde. Amor próprio, a gente cultiva todos os dias até o final da jornada.

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