Ela sempre chamava a atenção, como uma estrela solitária na escuridão deveria chamar. Não era de propósito, e ela até tentava ser discreta. As pessoas aproximavam-se para observar seu brilho de fogo fátuo, a maioria de longe, e a julgavam como a estrela mais serena dentre todas que viram. Quem sabia a verdade sobre ela eram os poucos que escalavam as montanhas de gelo para tocá-la.

Ela era brilhante a ponto de sua energia derreter a neve dos picos e flores nascerem no ar rarefeito. Ela era ofuscante, instável, no entanto longe de ser maldosa. Os persistentes que a abraçaram, ultrapassando as barreiras de ar quente, poeira dourada e combustão, sabem disso. Sim, ela queimava, mas não destruía: modificava a vida de quem a alcançava. Uma cicatriz ou outra fazia parte como qualquer experiência na vida.

E pouquíssimos ainda tentaram se fundir a ela, que acolhia os corajosos e os loucos sem exceção. Para amá-la àquele nível, a pessoa deveria ser ambos os tipos de humanos com maestria. Contudo, esses filhos de Ícaro, maleáveis como cera, afastaram-se ao notarem que suas vidas seriam transformadas para sempre se aceitassem-na como era. Ora, não podiam mudar a natureza daquele sol noturno; o melhor seria correrem montanha abaixo, com suas asas descolando das costas.

Numa reação físico-química, as chamas dela arrastavam-se lastimosas pelos jardins das montanhas, e um deserto de cinzas nascia. Até que vinham os ventos e uma nova flor brotava do solo gentil, mais forte do que suas ancestrais.

(Escrito em 28 de março de 2016)

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