A criatura escondia-se sob a penumbra azulada das árvores, e a menininha de cabelo dourado sentia a empolgação impulsioná-la para perto, por mais que a cautela segurasse seu pulso.

Já vim até aqui e não voltarei atrás, a criança negociou consigo mesma. Pé ante pé, com respiração ofegante, caminhou até o animal mágico aparentemente arredio. A iminência dele fazia sua pele eriçar de êxtase.

Seu corpo, assim como sua alma, sabia que a magia estava diante de seus olhos. Uma chance única de alcançá-la.

Hesitante, a humana estendeu a mão gordinha, fazendo o unicórnio retroceder com um relincho de protesto. O chifre furta-cor avermelhou-se com o movimento. A menina permaneceu na mesma posição, estátua infante, e ciciou:

— Eu não vou te machucar.

A feição do equino pareceu suavizar. Receoso, foi a vez dele avançar e parar a poucos centímetros da palma da mão da menina. Ambos se olharam em silêncio sob a luz lunar, e a humana viu que os olhos dele eram tão sentimentais quanto dos adultos.

Ela sorriu sem mover seus demais músculos, por mais que formigassem. O unicórnio ficou satisfeito com a gentileza e a tocou, por fim, com seu focinho macio.

(escrito em 1º de janeiro de 2015)

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